2012-07-26

PALAVRAS DO SUBLIME KRISHNA




A Sabedoria do Desapego


Prestes a entrar em combate com os poderosos senhores da noite, seus familiares e amigos de infância, Arjuna, o guerreiro perfeito, desfalece e cogita abandonar a luta. Estimulado por Krishna, seu conselheiro espiritual, ouviu dele a explanação dos motivos que o levavam ao combate. “A Sabedoria do Desapego”, breve diálogo de Krishna com Arjuna, é o cerne de toda a Bhagavad Gita.

" Bom é agir e bom é abster-se da atividade; tanto isto como aquilo conduz à meta suprema. Mas, para o principiante, melhor é agir corretamente.

O verdadeiro renunciante é somente aquele que nada deseja e nada recusa, inatingido pelos opostos, tanto no seu agir como no seu desistir; não afetado nem por esperança nem por medo.

Os ignorantes tecem teorias sobre o agir e o conhecer, como se se tratasse de duas coisas distintas: mas os sábios estão convencidos de que quem faz isto, não deixa de colher os frutos daquilo.

O reino da quietude que os sábios conquistam pela meditação é também conquistado pelos que praticam ações; sábio é aquele que compreende que essas duas coisas – a consciência mística e a ação prática – são uma só em sua essência.

Difícil tarefa, herói, é alcançar o estado de renúncia sem ação e sem que o espírito da fé penetre o coração. O sábio que, pela força da verdade, renuncia a si mesmo, integra-se em Brahman [ O Divino ].

Esse é puro de coração, forte no bem e senhor de todos os seus sentidos; a sua vida está a serviço da vida de todos, e ele realiza todas as ações sem ser escravizado por nenhuma delas.

Porquanto reconhece que não é ele que age, quando vê, ouve ou sente.

Pois, quando vê ou ouve, cheira ou come, dorme ou respira, quando abre ou fecha os olhos, quando dá ou recebe ou exerce outro ato sensório qualquer – não são senão seus sentidos que operam com esses objetos externos.

Quem tudo faz sem apego ao resultado dos seus atos faz tudo no espírito de Deus, e, como a flor de lótus, incontaminada pelo lago em que vive, permanece isento do mal.

Com todas as forças do espírito, da mente, do coração e do corpo luta o yogui pela purificação de sua alma, sem nada buscar para si mesmo em tudo o que faz.

Quem a tudo renuncia, jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras é escravizado pelos seus desejos .

O sábio que, em corpo terrestre, se libertou do egoísmo, habita, mesmo quando age, no céu da sua paz, na “cidade dos nove portais”; não tem desejos, nem induz outros a terem desejos.

O Senhor do Universo não cria a ação nem o impulso de agir, nem o desejo dos frutos da atividade – tudo isso nasce da natureza finita do indivíduo.

O Senhor do Universo não toma sobre si as culpas dos homens, porque está acima de todas as ações, perfeito em si mesmo. Erram os homens por sua própria ignorância, porque a luz da verdade está envolta nas trevas da ilusão.

Mas quando as trevas sedem à luz, amanhece o dia, e, assim como o sol em pleno esplendor, revela-se ao Ser Supremo.

Quem se integra no Ser Supremo e nele repousa está livre da incerteza e trilha caminho luminoso, do qual não há retorno, porque a luz da verdade o libertou do mal.

Quem vive na luz da Verdade vê Deus em todos os seres – no brâhmane e no cão, no elefante e na vaca, ...

Os que estão firmes na luz da verdade venceram o mundo, já aqui na terra, pela fé na harmonia universal; porquanto Brahman transcende todas as condições da dualidade, habitando na suprema unidade – quem o conhece, repousa em Brahman.

Quem vive firmemente consolidado na consciência de Brahman não sucumbe à alegria, na prosperidade, nem à frustração, na adversidade – mas remonta à claridade sem nuvens e se integra na Divindade.

Quem preserva sua alma livre de todas as coisas que vêm de fora realiza o seu verdadeiro EU, atinge a Paz Profunda, a beatitude do verdadeiro ser.

As alegrias que brotam do mundo dos sentidos encerram germes de futuras tristezas; vêm e vão; por isso, ó príncipe, não é nelas que o sábio busca a sua felicidade.

Feliz é aquele que, durante a vida terrestre, consegue libertar-se dos impulsos que geram paixão e ódio, estabelecendo-se firmemente no espírito da união com Deus.

É ele, na verdade, um santo, que encontra o céu dentro de si mesmo; a sua vida é uma com Brahman e abre-se-lhe a porta do nirvana.

É assim que os rishis, livres de incertezas e senhores de si mesmos, já aqui na terra, entram no nirvana da Divindade, vivendo a vida de todos os seres.

Todos os que, libertos de ódio e paixões, fortes na humildade e iluminados pela fé, superaram o seu ego humano e realizaram em si o Eu divino, todos eles se aproximaram da verdadeira Paz em Deus.

O yogui que habita na luz, que se abstém do contato com o mundo dos sentidos, cujo olho espiritual se abriu e cuja respiração espiritual se sintonizou com a respiração corporal.

Ele, que repleto da virtude de Deus, governa o coração e a mente, e, sem egoísmo, anseia pela redenção – esse se libertou de si m esmo e vive na paz eterna, aqui e por toda a parte.

Ele sabe, que EU SOU a Essência em todas as Existências; eu, o Imanifesto em todos os Manifestos: eu, a suprema e imutável Realidade em todos os mundos em incessante mutação; eu, refúgio e proteção de todas as criaturas. Quem isto sabe, encontrou a paz...


( Excerto do Bhagavad Gita )




KRISHNA – O AMOR NOS CAMPOS DO CORAÇÃO ESPIRITUAL II 


 



Foi em Seus olhos que eu vi o Amor.
No começo, fiquei sem saber o que fazer.
Então, Você riu e tudo ficou azul e dourado.
E eu me encontrei!

Você nada me disse, e nem precisava.

Meu coração entendeu.
Com Você, o Amor canta no silêncio.
E eu ouvi Sua canção, em espírito.

Você entrou em meus pensamentos.

E viu tudo o que eu sou, sem máscaras.
Você nada julgou, só me compreendeu.
E algo mudou em mim.
Vi tantas coisas em Seus olhos...
Vi gente de todos os tipos.
Vi o Seu Grande Amor por todos.
E também vi que Você os compreende.

Vi o Multiverso em Seus olhos...

Os sóis gravitavam em torno de Sua serenidade.
Planos e dimensões se desdobravam dentro de Você...
E eu escutei os astros cantando o Seu Nome.

As estrelas cantavam Sua Glória, My Sweet Lord!***

E Você cantava no silêncio do meu coração.
E eu não sabia o que fazer com tanto Amor fluindo em mim...
Tímido, só orei e agradeci o Seu carinho.

Ah, Krishna! Nada sei sobre o infinito.

Mas eu o vi em Seus olhos, e tudo mudou em mim.
E agora, eu escuto o canto dos astros em meu coração.
E, por isso, também escuto a mesma canção em tudo.





P.S.:
My Lord, olho para cima e vejo o Seu olhar no azul do céu.
Olho para baixo e vejo Você abraçando o planeta.
Olho para adiante e vejo Você nos outros.
Olho para mim mesmo e vejo o Seu olhar no meu.

Se entro em meu coração, sinto o Eterno.

Se medito, tudo fica azul e dourado.
E algo acontece... O Amor se faz...

E eu não sei mais o que dizer ou fazer.

Os astros estão cantando em Seus olhos.
Eu estou em Seus olhos, e todos os seres também.
E eu novamente oro quietinho, pois é só o que posso fazer.

In Your Eyes, In Your Eyes, In Your Eyes...


Om Krishna Om!


(Dedicado a todos aqueles que também sentem um Grande Amor em seus pequenos corações. Eles sabem. Eles amam. Eles sentem. E um doce olhar os conhece profundamente. Alguém Maior os compreende. Ele está em seus olhos.)


Serenidade e contentamento.

Profundidade na senda.
Amor na jornada

Paz e Luz.



( - Wagner Borges – centelha do Eterno aprendendo na Terra como lidar com um Grande Amor em seu pequeno coração. )








O primeiro livro de Yoga


A Bhagavadgita é o texto sagrado da Índia. O longo poema é também um tratado sobre Yoga.

A Bhagavadgita é O texto sagrado da Índia. O longo poema é também um tratado sobre Yoga, e tem inúmeras interpretações e textos criados sob sua inspiração no Ocidente. Para mostrar um pouco mais da influência da história do príncipe guerreiro Arjuna e o deus Krishna a caminho da batalha sobre nossas vidas – e prática de Yoga, que, no fundo, são uma coisa só — , convidamos uma das maiores especialistas em Vedanta no Brasil, Gloria Arieira. Apesar de o texto ter sido escrito há cerca de dois milênios, sua mensagem para nos desapegar dos resultados das nossas ações é tão atual quanto necessária.


A relação entre a Bhagavadgita e a nossa prática


A Índia é o lugar de origem do Yoga que hoje está presente em todos os continentes, famoso entre artistas, políticos e pessoas mais comuns. Fala-se em Yoga clássico, Yoga cristão, Yoga de Patanjali, Ashtanga Yoga e tantos outros nomes, às vezes apenas uma maneira de tentar se diferenciar. Mas o berço do Yoga é o Veda, o corpo de conhecimento mais antigo da humanidade que está vivo, ainda hoje, na Índia.

O conhecimento do Veda recebeu o nome de Hinduísmo pelo europeu no século passado, e foi classificado como religião. Mas o Veda faz parte de um conjunto chamado de Sanatana Dharma ou Vaidika Dharma. Dharma significa Lei Universal em sânscrito. Sanatana significa eterna, a Lei Universal Eterna revelada no Veda, por isso denominada de Vaidika (o que tem origem ou pertence ao Veda).

O Veda é imenso, e são ainda mais vastas as áreas de conhecimento derivadas dele, como a dança-teatro, a música, a saúde, a arquitetura, a gerência de uma sociedade, entre outras. Todas essas áreas de conhecimento fazem parte da tradição védica, o Vaidika Dharma, que compreende vários textos.

Entre esses textos encontramos a Bhagavadgita, a “Canção do Senhor”. Gitam é uma palavra de gênero neutro transformada em feminina – Gita. O conhecimento é visto como feminino, como uma mãe que abençoa seus filhos de maneiras diferentes, conforme suas necessidades e desejos. Bhagavad significa Senhor, aquele que possui qualidades, bhaga, em medidas totais.

Esse texto relata o diálogo entre o discípulo Arjuna e seu mestre, Sri Krishna, no campo de batalha, antes que tivesse início uma guerra inevitável entre primos e amigos. O texto da Gita, como ela é carinhosamente chamada, é encontrado no meio do grande épico de 18 capítulos, o Mahabharatam, contado pelo sábio Vyasa e que, em linguagem acessível, revela os mesmos conhecimentos expostos no Veda sobre os mistérios da ação e seus resultados e do conhecimento do Ser absoluto, conhecimento esse que liberta o indivíduo do ciclo de nascimentos e mortes. É dito que o que não se encontra no Mahabharatam simplesmente não existe.

Arjuna e Krishna são primos e amigos. Arjuna sabe que Krishna não é uma pessoa comum, sabe que ele possui um conhecimento especial, mas até aquele momento, antes de começar a guerra, não tem interesse especial pelo conhecimento.

Krishna, como tantos sábios, sabe que o conhecimento do Ser absoluto não pode ser oferecido, tampouco ensinado para qualquer pessoa. A primeira condição é o desejo e o pedido.

Naquele momento especial, Arjuna dirige-se a Krishna e pede que lhe seja ensinado sobre o Ser eterno e pleno, conhecimento que o libertará do sofrimento característico do ser humano, a sensação constante de carência.
Arjuna pede o conhecimento e o meio para alcançá-lo. O meio que possibilita o entendimento do Ser absoluto é chamado de Yoga na Bhagavadgita.

Yoga é uma palavra em sânscrito que possui muitos significados; yogi ou yogini, palavras masculina e feminina respectivamente, designam a pessoa que pratica Yoga. Esse é o termo que usamos atualmente, “praticar Yoga”, mas na Bhagavadgita o correto é viver Yoga. Não é somente uma prática isolada, mas um conjunto de práticas determinadas pelo que se deseja alcançar. Yoga é um estilo de vida dirigido à preparação de uma pessoa para a aquisição do conhecimento do Ser livre da limitação.

Essa preparação ou capacitação compreende algumas qualificações da mente e do corpo, pois os dois constituem uma unidade, o indivíduo.

Sri Krishna na Gita diz que existem três tipos de pessoa: o impulsivo, o deliberado e o espontâneo. Chamados de aviveki, viveki e jnani respectivamente. Os animais estão fora desta denominação, pois não têm capacidade de escolha, são governados por padrões específicos de instintos e portanto não cometem erros. Cada animal age de acordo com seu grupo. É o ser humano, abençoado por um intelecto, que pode escolher agir de uma maneira ou de outra ou não agir. Algumas vezes o ser humano age impulsivamente, sem usar seu poder de deliberação, e arca com as conseqüências. Ser deliberado é estar alerta de agir consciente em suas escolhas e nas conseqüências delas.

O espontâneo é muitas vezes confundido com o impulsivo, mas enquanto que o último age sem deliberar, movido pelos desejos, o primeiro age visando à harmonia universal, independente de desejos pessoais e livre de conflitos.
O deliberado é o yogi, aquele que aprende a conduzir a si mesmo deliberadamente, exercendo suas escolhas de maneira consciente.

Torna-se importante entender a si mesmo, os impulsos, carências, dificuldades e facilidades, mantendo-se atento às suas reações mecânicas e impulsivas quando a clareza de sua discriminação desaparece. A pessoa é como que tomada pelo poder das reações, dos desejos, dos conflitos, e torna-se por um momento impotente. E o yogi tem o valor por estar alerta, por ser deliberado. Para conquistar a si mesmo, o yogi vive uma vida consciente, da qual fazem parte as práticas de asanas, pranayamas e meditação.

O método apresentado por Sri Patanjali, mestre dos Yoga-sutras, e ensinado por Sri Krishna no capítulo seis da Bhagavadgita é chamado de abhyasa-vairagya (“repetição-renúncia”). Abhyasa, a repetição, é a prática que se repete até que seja conquistada, e a renúncia, vairagya, refere-se ao que é percebido como um obstáculo ao objetivo de autoconhecimento.

Como não são práticas isoladas, mas um conjunto de práticas que estrutura a vida diária, Yoga é reconhecido como um estilo de vida, e a pessoa compromissada com o Yoga é o yogi ou a yogini.

Com um mente-corpo preparado, a pessoa descobrirá o desejo pelo autoconhecimento e encontrará os meios para alcançá-lo – uma pessoa que possa lhe ensinar dentro dos moldes mais tradicionais, já usados por Sri Krishna para ensinar Arjuna. O método de aprendizado inclui o escutar os ensinamentos, o refletir sobre o que foi dito e o contemplar sobre o que foi entendido.

Assim Krishna ensinou a Arjuna e essa tradição vem sendo preservada e mantida viva até hoje. O momento em que o desejo pelo conhecimento mais profundo de si mesmo aparece é sagrado, é especial. É por isso mesmo que o mestre Krishna pára tudo o que está fazendo, sentindo-se feliz com o pedido do seu agora discípulo Arjuna e lhe ensina seguindo a mesma tradição antiga que é o vaidika dharma, a tradição dos Vedas antigos.

“A Bhagavadgita é também um grande texto de Yoga. Ela enfatiza a idéia de que o caminho para um poder mais elevado não implica que devemos negligenciar ou nos recusar a cumprir nossas obrigações na vida. Isso é o que torna a Bhagavadgita única. O livro nos diz que nossa busca não deveria ser uma fuga da vida. Ele relaciona muitas coisas das Upanishads de uma maneira bem fácil de entender, e, contém importantes indicações sobre coisas tais como técnicas de respiração e nutrição.” (do livro The Heart of Yoga, de Desikachar)


“Sob o domínio do apego, com a mente incapacitada para decidir o que deve ser feito por mim, peço-lhe: ensine-me aquilo que é afirmado decisivamente como absoluto. Sou seu discípulo. Ensine-me, pois me entrego a você.” Bhagavadgita capítulo II, verso 7


“Estando firme no Yoga, abandonando o apego e mantendo a mesma atitude frente ao sucesso e à derrota, faça ações, Arjuna. O equilíbrio da mente é Yoga.” Bhagavadgita capítulo II, verso 48


Por: Glória Arieira